Sem alienação!!!

Finalmente, irmãos, tudo o que for verdadeiro, tudo o que for nobre, tudo o que for correto, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, pensem nessas coisas.

Filipenses 4.8






Um deus domesticado

Quando você se sente disposto e o sol brilha, e você não quer acreditar que o universo todo não passa de uma mera dança mecânica de átomos, é bom ser capaz de pensar nessa grande força misteriosa como uma onda gigantesca que se move através dos séculos, carregando você em sua crista.

Se, por outro lado, você estiver propenso a fazer algo vergonhoso, a Força Vital, que não passa de uma energia cega, amoral e desprovida de mente, jamais [grifo nosso] irá interferir em sua vida da mesma forma como faz aquele Deus terrível, do qual ouvimos falar na infância. A Força Vital é uma espécie de Deus domesticado. Podemos acioná-la quando bem entendemos, desde que ela não interfira em nossas vidas.

LEWIS, C. S. Um ano com C. S. Lewis: leituras diárias de suas obras clássicas / C.S. Lewis ; 2.ed. ; editado por Patrícia S. Klein ; traduzido por Gabriele Greggersen. – Viçosa: Ultimato, 2009.

Gentrificação




Com a globalização e a melhora da economia nacional, começa a surgir no Brasil um "movimento" de revitalização urbana chamado gentrificação. A ideia desse "enobrecimento urbano, ou gentrification, diz respeito à uma intervenção em espaços urbanos (com ou sem auxílio governamental), que provocam sua melhoria e consequente valorização imobiliária, com retirada de moradores tradicionais, que geralmente pertencem a classes sociais menos favorecidas, dos espaços urbanos" [Wikipédia].

Num primeiro momento esse movimento parece ser interessante, visto que buscar recuperar locais que estão degradados. No entanto, devemos nos perguntar qual será o preço dessa recuperação? Não somente por conta dos recursos públicos demandados, mas também, em relação à vida das pessoas que ocupam atualmente esses locais.

Por exemplo, para onde serão enviadas as pessoas que moram atualmente nos locais recuperados? Muitos desses lugares também abrigam moradores de ruas que, da mesma forma, terão que ser removidos, mas para onde?

Eu trabalho no Centro velho de São Paulo e, confesso que gostaria muito de vê-lo recuperado, mas a pergunta anterior continua me angustiando: para onde vão enviar os antigos moradores? 

Eduardo Nobre, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, avaliando as intervenções urbanas feitas em Salvador, conclui que:  

"não é o caso de negar o desenvolvimento econômico proporcionado pelo turismo, visto que ele tem grande importância na cidade de Salvador, gerando um grande número de empregos e de atividades econômicas. Contudo, esse processo foi um ótimo negócio para os proprietários, que tiveram seus imóveis recuperados e valorizados com investimento público, enquanto que a população pobre foi recolocada para piores condições de vida geralmente" [NOBRE, 2003].
Inevitavelmente, o embelezamento das cidades brasileiras em decorrência da prosperidade passará pelas velhas questões sociais. Com olhares mais atentos, os moradores de grandes metrópoles como São Paulo podem ver que muitos mendigos já estão migrando para bairros periféricos. E aí, vem a pergunta: será que isso já é resultado de uma gentrificação mal feita?

Questões como essa deveriam estar no centro dos debates políticos, pois em algum momento isso tudo se voltará para nós, assim como acontece com o caso do combate às drogas, por exemplo.

Ao abordar esse tema com as pessoas, vejo que a maioria nem pensa sobre o assunto. Quando alguém arrisca opinar sobre isso, diz algo como: “em se tratando de morador de rua, ‘o que dá para fazer?’, a maioria é vagabundo mesmo!”. Será que é tão simples assim? E com relação ao moradores, o que fazer?

Acredito ser importante revitalizar áreas que estão degradadas, entretanto, é preciso fazê-lo de forma sustentável, de maneira que todos saiam ganhando. Alguns pesquisadores, como Ferraz (2004) citado por Moraes (2007), sugerem que "há apenas uma alternativa para fazer do centro uma área democrática: “ou considera-se o centro uma área de usos mistos, sem excluir os atuais ocupantes, ou se destrói a atual situação e, no lugar, constrói-se um simulacro, uma espécie de ‘teatro a céu aberto’, onde uns são bem-vindos e outros não – neste caso, melhor mudar o nome ‘centro’”.

Ainda não tenho uma opinião formada sobre o assunto, mas sei que precisamos pensar nisso antes de agir, pois só assim exerceremos nossa cidadania de forma efetiva.





Como nos veem

Somos tidos por tristes, nós que estamos sempre alegres; por pobres, nós que enriquecemos a muitos; por nada tendo e, no entanto, tudo possuindo. [2 Cor 6.10]

O caminho da paciência

A maneira de Jesus é tão diferente. Embora ele tenha trazido grande conforto e tenha vindo com palavras suaves e toque curador, não veio para eliminar nossas dores. Jesus entrou em Jerusalém, nos seus últimos dias, montado num jumento, como um palhaço numa parada. Esse foi o seu jeito de fazer-nos lembrar que enlouquecemos quando insistimos em vitórias fáceis ou quando pensamos que podemos disfarçar o que nos aflige, gastando nosso tempo em futilidades. Muito do que realmente vale a pena só acontecerá através de confronto.

O caminho entre o Domingo de Ramos e o Domingo de Páscoa é o caminho da paciência, o caminho do sofrimento. A nossa palavra paciência deriva do antigo radical patior, que significa sofrer. Aprender a paciência é não nos rebelarmos contra cada adversidade, porque, quando insistimos em esconder nossas dores com “Hosanas” fáceis, corremos o risco de perder nossa paciência. Quando a frivolidade do caminho fácil se desgasta, nós nos tornamos amargurados e cínicos, ou violentos e agressivos.

Em lugar de tudo isso, Cristo convida-nos a permanecer em contato com os muitos sofrimentos de cada dia e a experimentar o começo da esperança e da nova vida, justamente aí onde vivemos, no meio das feridas, dores, falência. Ao observar sua vida, os seguidores de Cristo perceberam que, quando todos os gritos “Hosanas” da multidão cessaram, discípulos e amigos o abandonaram. Depois de Jesus gritar “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, foi então que o Filho do Homem ressuscitou da morte; foi então que ele rompeu as cadeias da morte e tornou-se Salvador. Este é o caminho da paciência, que nos conduz vagarosamente do triunfo fácil à árdua vitória.

Terei menor tendência a negar meu sofrimento quando aprender que Deus o usa para moldar-me e atrair-me para mais perto de si. Deixarei de ver minhas dores como interrupções dos meus planos e serei mais capaz de vê-las como meios de Deus fazer-me pronto a recebê-lo. Deixarei Cristo viver junto às minhas dores e perturbações.

NOUWEN, Henri. Transforma meu pranto em dança: cinco passos para sobreviver à dor e redescobrir a felicidade. Rio de Janeiro: Thomas Nelson, 2007, p.24-25.

Missão integral


Um dos “movimentos” mais interessantes em nosso tempo e, no entanto, ainda pouco relevante, é o da missão integral. Apesar de não ser propriamente uma novidade, pois a “expressão ‘missão integral’ foi gerada principalmente no seio da Fraternidade Teológica Latino-Americana há mais ou menos duas décadas” (RENÉ PADILLA, 2009, p.12), a missão integral teria tudo para transformar a realidade espiritual e social de nosso país.

Segundo René Padilla, em seu livro ‘O que é missão integral?’, esse “movimento” nasce como uma tentativa de ser um contraponto ao movimento missionário moderno que, por sua vez, entendia missão como algo estritamente relacionado com questões geográficas, ou seja, o “propósito da missão era ‘salvar almas’ e ‘plantar igrejas’, principalmente no exterior, mediante a proclamação do evangelho” (RENÉ PADILLA, 2009, p. 14).

Na perspectiva da missão integral, a missão da igreja não se restringe a poucos vocacionados dispostos a cruzar fronteiras geográficas, vai muito além disso. Para exemplificar essa diferença, René Padilla concorda com Brian McLaren que diz:
“Para Cristo, seus “chamados” (que na realidade é o que significa “igreja”) seriam também seus “enviados” [ou missionários]... Segundo esta visão da igreja, não recrutamos pessoas para que sejam clientes de nossos produtos ou consumidores de nossos programas religiosos; nós as recrutamos para que sejam colegas em nossa missão. A igreja não existe para satisfazer às demandas de crentes consumidores; ela existe para equipar e mobilizar homens e mulheres para a missão de Deus no mundo.” (RENÉ PADILLA,2009, p.19).
Diante disso, René Padilla sugere que ser missionário não é responsabilidade e privilégio de alguns que se sentem chamados ao campo missionário (que neste enfoque é o mundo todo, inclusive o nosso bairro), mas sim de todos os membros (geração eleita), já que todos foram chamados por Deus com o objetivo “de proclamar as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” [1Pe 2.9] onde quer que se encontrem.

Na visão de René Padilla, missão integral não é um novo paradigma para a missão, ou seja, na verdade é
“a recuperação do conceito bíblico da missão, já que, de fato, a missão é fiel ao ensinamento das Escrituras na medida em que se coloca a serviço do reino de Deus e sua justiça. Consequentemente, ela focaliza o cruzamento da fronteira entre o que é fé e o que não é, não somente em termos geográficos, mas também em termos culturais, étnicos, sociais, econômicos e políticos com o fim de transformar a vida em todas as suas dimensões, segundo o propósito de Deus, de modo que todas as pessoas e comunidades humanas experimentem a vida abundante que Cristo lhes oferece” (RENÉ PADILLA, 2009, p.19-20).

Para concluir, penso que a missão integral não se tornou tão relevante quanto deveria por dois fatores principais: primeiro porque requerer que os fiéis deixem suas poltronas cativas de membros-cliente e passem a ser agentes do Reino; e, por fim, para decepção de muitos clérigos, porque como o próprio René Padilla diz:
“Quando a igreja se compromete com a missão integral e se propõe a comunicar o evangelho mediante tudo o que é, faz e diz, ela entende que seu propósito não é chegar a ser grande numericamente, ou rica materialmente, ou poderosa politicamente. Seu propósito é encarnar os valores do reino de Deus e testificar do amor e da justiça revelados em Jesus Cristo, no poder do Espírito, em função da transformação da vida humana em todas as suas dimensões, tanto em âmbito pessoal como em âmbito comunitário” (RENÉ PADILLA, 2009, p.18).